quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pretend It's Ok - 1ª Temporada - Capitulo 41 - I can't.

 

 

Sinto um vazio no peito, fá-lo doer. Porque está vazio, nada a ocupá-lo ou para mantê-lo ativo... impossível de curar. O tempo não muda nada, não cura nada, não torna uma pessoa fraca numa pessoa forte. É isso que temos de perceber, e esperar que o tempo ligue os pontos e cosa o meu cérebro para que funcione normalmente não vai acontecer. É impossível de qualquer das formas. Se o cérebro para, também nós.
A raiva nas minhas veias corre rapidamente, a chuva perfura a minha pele como tiros, o vento deixa-me sem ar e penso que posso ficar louca. Corro pelo compartimento escolar, à procura da saída, nunca antes tão difícil de encontrar. Os meus olhos parecem cegos com as gotas pesadas que caiem do céu, levando-me a embater dolorosamente contra o peito de alguém. Afasto-me e o meu coração bate rápido, começando a correr rapidamente, sem antes mesmo de pedir desculpa. Ele ficou apenas a olhar-me enquanto corria desesperadamente à procura de saída, à procura de alguma paz, algum conforto, na minha casa.
Não percebo nada. Não percebo porque corro, de qualquer das formas, não percebo porque tive de confrontá-lo numa sala de aula, não percebo como deixei tudo chegar a esse ponto, bem lá no fundo, nem percebo porque me sinto tão mal, como se todo o meu mundo tivesse desaparecido e eu fosse forçada a viver no dele. Não consigo suportar, é impossível lutar contra algo que nem eu mesma sei o que é, se é raiva, pena por ter acabado, tristeza, loucura... não sei, mas de tudo o que sei, isso eu não quero descobrir. Às vezes, para dar certo, temos de viver na ignorância. Pena que eu não sou assim.
As minhas pernas mexem-se rapidamente pelo passeio, já não correm, apenas andando a passos rápidos, enquanto o punho da minha camisola é usado para limpar as lágrimas que escorrem pelo meu rosto. A minha respiração desacelerou um pouco desde que cheguei cá fora, mas continua demasiado rápida para o normal, demasiado dolorosa para suportar.
Xxx: Bell? - o meu corpo torna-se pedra, os meus olhos fecham-se e algumas gotas caiem dele. - Bell! Babe.
Eu: Dan? - sussurro, inaudível, incrédula. Viro a cabeça rapidamente, o meu corpo seguindo as mesmas ações, encontrando-me totalmente desesperada ao vê-lo ali, à minha frente, quando na minha cabeça tudo o que penso é bater-lhe, bater-lhe e berrar, até que não possa falar nunca mais.
Os seus passos encaminham-se na minha direção, a histeria a percorrer cada fibra do meu corpo, a loucura a possuir a minha alma.
Eu: Como é que tiveste coragem de fazer aquilo? - as minhas mãos formam punhos, os meus olhos perfurando cada pedaço do seu corpo, inquieto e nervoso.
Dan: Bell, babe... eu juro, eu estava bêbado, tão bêbado... - a sua mão corre do seu bolso até o seu cabelo, despenteando-o nervosamente enquanto se aproxima, o meu corpo tremendo inquietamente.
Eu: Não te aproximes! - grito. Ele para os seus movimentos, as suas mãos mexendo em todo o seu corpo, desde o seu peito, até a sua testa.
Dan: Por favor, acredita em mim, eu nunca te faria isso. Eu não faria.
Eu: Porque é que o fizeste então? - estalo, voz chorosa e trémula, ele não responde. - Diz alguma coisa foda-se! Não tens noção do que provocaste... não tens... - digo incrédula, ele parece com remorsos, com pena.
Dan: Eu sei, eu sei. Foda-se, Deus sabe que eu nunca faria isso, não em plena consciência. - ele choraminga. - Mas tu estavas lá, tão linda, tão... - pausa. - Só eu sei o quanto me controlei todo este tempo, mas eu estava fora de mim, eu queria-te só para mm. Para mim. Não com ele! - a sua voz sobe, quase gritando, com raiva.
Eu: Para. Para, para, para!! - grito alto, a minha garganta a doer no mesmo segundo, as lágrimas escorrendo até a minha boca, levando-me a provar o mesmo sabor salgado de sempre. - Sabes o quanto te odeio? O quanto quero, - pauso, os batimentos do meu peito acelerando freneticamente, como flechas. - o quanto te quero bater agora? O quanto te quero ver sofrer, ver-te passar por tudo o que passei?? - choro. - Porra Dan, a minha vida já é tão difícil, tão difícil foda-se! Porque é que fizeste isto? Porquê?
Dan: Eu sei bebé, e acredita em mim, mais ninguém neste mundo te percebe tanto como eu! Eu sei o que é isso, eu sei o quanto é querer que alguém morra, o quanto é querer que alguém sofra por tudo o que nos aconteceu! Eu sei foda-se! - grita, elevando o seu tom de voz cada vez mais, mais baixando-o lentamente, incerto, inseguro. - Por favor, tens de acreditar em mim. Por favor Bell.. - os seus olhos brilham, o meu corpo dói com a proximidade a que ele se encontra, cada vez se aproximando mais. - Deixa-me... por favor, deixa-me ajudar-te.  Eu sei que é estúpido, eu sei, mas eu só quero ver-te bem. Amor...
Eu: Não me chames amor!! - berro.
Dan: Apenas, percebe que eu não fiz tudo isto para vos separar, para te ver mal. Não. Eu, eu apenas... eu preciso de ti Bell. Eu preciso. - o meu coração para de bater no meu peito, a temperatura em redor sobe, as minhas mãos tremem e os pelos nos meus braços arrepiam-se, congelando-me até a alma.
Eu: Nunca ninguém precisou de mim.

Dan: Mas eu preciso, eu preciso, deixa-me provar-te que só quero ver-te bem, ver-te assim parte-me o coração. - ele chora, algumas lágrimas escorrem pelo seu rosto, mas ele limpa-as rapidamente com o seu polegar. Sinto-me tão estúpida, tão estúpida por chorar em frente a ele, por não estar a bater-lhe como tanto quero, por não estar a correr até a minha casa para nunca mais o ver. Tão idiota, tão fraca, tão desesperada para ter alguém que se importe...

Eu: O que é que tu sabes?

Dan: O quê?

Eu: O que é que tu sabes que te faz perceber assim tanto de mim? O quê? De repente adivinhas a minha vida? É isso? Explica-te, por favor explica-te ou eu acho que vou enlouquecer. - digo, a minha voz alterada, a minha cabeça a doer enquanto as minhas mãos fazem o seu caminho para limpar as lágrimas.

Dan: Sabes porque é que sou assim? Porque é que tenho de vender estar merda? - ele cospe, gritando, referindo-se à droga que ele atira para o chão, o pó de dentro espalhando-se pelo chão, levado pela chuva. - Eu não quero isto! Não foi isto que eu escolhi para a minha vida! - ele berra. - Mas eu tenho de o fazer, caso contrário sou expulso de casa, porque tenho de sustentar a minha família! O meu pai é alcoólico, a minha mãe está sempre a fugir de casa porque ele lhe bate, e  depois, depois eu fico sozinho, como todos estes anos! Nunca passei anos tão maus como estes últimos... eu tive de o fazer, eu tive de o fazer se queria continuar com eles. Porque apesar de tudo, eles são minha família, e eu não posso deixá-los! - as lágrimas escorrem pelo seu rosto com a mesma frequência que a água cai do céu, o meu peito dói tanto como se tivesse sido cortado em bocados. - Mas eu quero, eu quero tanto deixá-los por vezes, fazê-los ver que me estragaram a vida, que eu posso ser melhor do que isto, sem eles! Mas eu não posso dizer-lhes isso, porque sem eles eu não sou nada! E infelizmente, infelizmente eu também sei que a tua vida é assim... difícil, horrível, um verdadeiro pesadelo. E sabes o pior? Eu sei porquê, e acredita... eu só queria ter estado contigo e ajudar-te quando eles se foram, eu queria! Mas eu não sabia, eu não te conhecia... mas eu podia ter-te ajudado. Sabes como é que eu sei disso? Sabes? - ele berra, rebentando com cada parte do meu corpo. - porque os teus olhos falam mais do que a tua boca. Cada vez que a palavra "pais" ou "família" é pronunciada, é como se te tivessem atirado de uma ponte abaixo, tal como agora... Mas Bell, nada na vida te pode fazer chegar a esse extremo, por mais que seja difícil, o nosso passado não pode influenciar o nosso futuro. Eu sei que tu os amavas, eu sei, mas dá uma oportunidade a todos os outros que se importam contigo mostrar que também te amam. Passa o capítulo à frente, a tua história pode ser maior do que isto, podes ser mais do que isto...

As gotas de água que caiem dos meus olhos molham a minha t-shirt à medida que as suas palavras soam da sua boca, memórias da minha família surgindo na minha mente. Eu era tão feliz, tão feliz... nada disto tinha de acontecer, e nada que eles digam pode mudar isto que eu sinto, esta raiva, esta impotência... eu não fui capaz de continuar a minha vida sem eles, eu não sou capaz! Não sou, porque pessoas como eu nunca aprenderão! Quando é que vou aprender? Eu só quero ficar bem, só quero que tudo fique bem... eu não quero ficar sozinha, eu odeio estar sozinha.

Eu: Eu não c-consigo... eu, e-eu, e-eu tenho saud-da-dades deles. - murmuro. - e-eu n-não consigo c-contin-nuar as-assim. - choro. - eu s-só qu-quero... - respiro fundo, apertando os punhos cada vez mais, não sendo capaz de formar a porra de uma frase sem gaguejar, sem chorar, sem conseguir prevenir-me de me sentir assim. - eu n-não qu-quero f-ficar... sozinha.

Dan: Está tudo bem. Por favor, não chores... -murmura, mas ele também chora. - P-posso abraçar-te? Eu não vou magoar-te, por favor... eu só quero abraçar-te. - a minha cabeça move-se para cima e para baixo, afirmativamente, não arranjando forças para abrir a boca para falar. Porque é como se a cada palavra me enterrasse cada vez mais, no meu buraco. Ele move-se calmamente até mim e abre os seus braços, envolvendo-me neles, apertando-me contra o seu peito. A chuva deixa o meu corpo dormente, as nossas roupas estão totalmente encharcadas e o seu corpo está gelado contra o meu.

Exatamente como nos sentimos.

 

Continua...

xxPatrícia

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