domingo, 7 de setembro de 2014

Pretend It's Ok - 1ª Temporada - Capitulo 40 - Breathing



O meu telemóvel marca 2h da manhã, na minha cabeça marcam 4h.
O meu telemóvel vibra a toda a hora, mensagens do Zayn e da Sally... pergunto-me como é que eles souberam. Mas pergunto-me ainda mais porque é que se preocupam. Era mais fácil se não quisessem saber de mim. Se nem sequer soubessem da minha existência. Dessa forma não tinha de preocupar-me se os iria magoar ou não, porque eles eram apenas estranhos. Como 98% da população. Se eu conhecer 2% sequer. Talvez não.
O meu peito arde, a minha garganta arde, a minha cabeça arde... tudo parece doer, tudo parece mais doloroso. Não vou dizer que não sei, porque é nisso que tenho estado a pensar todo o filho da puta de tempo, mas não obtenho resposta concreta.... não a que quero ouvir. Apenas, não.
As lágrimas pararam, como se o meu corpo não estivesse disposto a desperdiçar mais água, como se toda ela se tivesse evaporado dele.
As ruas estão vazias, geladas, horríveis... a luz é tão fraca que mal consigo ver, os meus olhos estão pesados e sei que se os pudesse ver estariam horríveis. Estou transparente. O que sinto dentro transparece para fora... transparente. Apenas isso. E é horrível, porque as muralhas que tentei construir durante todo este tempo, enquanto me preparava para mais uma noite destas quebraram de um momento para o outro, quebraram e nunca mais se vão construir. Sinto-me como se tivesse recuado 4 anos atrás. Todos os sentimentos voltaram em força. Porque sei, mais do que nunca, que não tenho ninguém que me vá fazer sentir bem de novo, ninguém que me faça tentar sorrir. Vou voltar a ser o mesmo. O que sempre fui. Fria. Distante. Arrogante. Alguém que nem eu mesma alguma vez quereria conhecer.
Os meus pés andam descalços pelo pavimento, as pedras doem neles, mas anda comparado com a dor que os saltos-altos me proporcionavam, quase me impedindo de andar. O vestido apertado faz-me acreditar que posso deixar de respirar em breves instantes, o meu telemóvel toca cada vez mais e tenho de colocá-lo em modo silencioso.

(...)

4h da manhã. A minha porta de casa finalmente abre-se, depois de procurar pelas chaves algures na mala. O calçado que seguro na mão é atirado contra o chão, o impacto fazendo um grande barulho para o silêncio que se sentia.
As escadas parecem infinitas, o meu quarto parece maior. A cama parece maior, enorme para mim, para dormir sozinha. Os meus olhos correm pelas cortinas, lágrimas escorrem por eles assim que o faço.
Ele está lá, ele está no seu quarto, ele está na sua cama.
Isto não deveria ser assim. Não tinha de ser assim.
O meu peito bate depressa à medida que a minha visão se torna fusca. Os meus joelhos tremem e as minhas pernas perdem a força, as minhas mãos parecem partir ao tentar segurar o meu corpo. A minha garganta rebenta em soluços silenciosos, choro silencioso, mas na minha mente estou a gritar, berrar alto e  bom som, as coisas partem, embatem no chão e deixam-no cheio de vidros, sangue escorre pelos meus pulsos à medida que me corto mais profundamente, à medida que a lâmina embate na minha pele e me provoca arrepios e gemidos silenciosos, dolorosos. Mas em vez disso choro no chão do meu quarto, à espera que a noite passe e tudo não tenha passado de um pesadelo. Em vez disso rompo por dentro, à espera que tudo vá melhorar a partir de hoje. Sozinha e por minha conta, como voltar aos velhos tempos. Como eu sempre gostei e fiquei a odiar. Porque eu já não me corto desde a primeira semana, mas porque bem lá no fundo sei que não passo de uma covarde, uma covarde que não consegue lidar com tudo sozinha. Porque ficar sozinho é o inferno. Leva-nos à loucura, a fazer coisas loucas. Porque não me drogo desde o dia em que estive com o Dan e agora, agora ele faz isto, agora ele faz com que tudo o que sempre sonhei caia como um lindo castelo de cartas.
Mas o Liam... ele não vai saber de nada, ele não vai saber que me torna fraca. Ele não é, nunca será o motivo da minha fraqueza. Eu consigo passar por isto sozinha. Não vou cometer loucuras por ele, não me vou deitar a baixo por ele, não vou desmontar-me como uma boneca e entregar-lhe o meu coração. Porque esta boneca, se alguma vez teve coração foi arrancado, ele arrancou-o e jogou com ele como o rei do castelo. Porque esta boneca era de confiança e não confiaram nela. Porque esta boneca é de barro, e parte.

(...)

O toque da campainha lembra-me que tenho aula, Psicologia, como todas as Terças-feiras de manhã. Estou do lado de fora da escola, sozinha, depois do Zayn e da Sally voltarem para as suas aulas. Não tenho a certeza se percebi o que eles me tentaram dizer durante a meia hora de intensa conversa. Os pormenores de cada palavra deles ainda estão na minha cabeça, a forma como o diziam de forma dura, zangados, irritados... Como se eu pudesse ter morrido ontem, como se eu estivesse morta e eles não pudessem fazer nada para me ajudar. Mas eu não estou, não como o resto da minha família.
Mas eles foram sérios, durante toda a discussão, uma faceta deles que nunca tinha visto. Mas eu não os conheço de verdade, e vice-versa. Só porque falamos uns com os outros não faz de nós amigos. Mas sim conhecidos. Conhecidos que mantém contacto quando se encontram ocasionalmente.
Caminho até a sala de aula e sento-me no mesmo sítio de sempre. Em questão de segundos a porta abre-se rapidamente, o Liam entrando de seguida e dirigindo-se até uma das mesas desocupadas. O meu peito bate depressa,o sangue nas minhas veias a correr rapidamente. Mantenho o meu olhar no professor, como se nunca ninguém tivesse entrado. Como se ele não existisse. Como se fosse invisível. Mas ele não é.
Ouço gargalhadas, risos, sussurros. Olho par ao lado e o meu coração parte-se em mil bocados. É claro que ia ser assim.
Mas o problema é: não pode ser assim.
A minha respiração descontrola-se, o professor está claramente distraído e não repara na fonte de murmúrio na sala de aula. Liam. Ele e outra rapariga, olhos tão focados nele que fazem o meu peito doer, rostos tão próximos e sorridentes que faz as minhas mãos tremer. Tento fazer anotações da matéria mas as minhas mãos não deixam, tremendo mais e mais enquanto seguro na esferográfica. Respiro fundo e fecho os olhos, respirando lentamente, dolorosamente. A aula continua, os risos continuam, os murmúrios continuam, a minha cabeça roda e o tempo parece aquecer descontroladamente. As minhas mãos fecham-se e formam-se punhos apertados enquanto continuo com o olhar no quadro. Não importa quantas vezes ele dirija o seu olhar ao meu, não importa quantas vezes eu respire fundo, não importa quem quer que seja a rapariga para que ele fale, a minha reação vai ser sempre a mesma. E eu não posso mudar isso, porque ao contrário dele, eu não deixo de amar uma pessoa de um dia para o outro. Não assim. Infelizmente. Eu adorava fazer o sentimento parar, mas não é como se fosse um brinquedo nem uma máquina. E neste momento odeio tudo o que sou, odeio tudo o que ele é, e principalmente, odeio tudo o que sinto por ele, porque ele é um idiota insensível. Mas não consigo mudar isso, e está a partir-me por dentro estar aqui sem fazer nada. E a minha respiração dói, a minha pele aqueceu estupidamente embora me sinta gelada, tudo o que vejo é vermelho, sangue. A raiva cresce nas minhas veias, a força que faço nos meus maxilares claramente a crescer.
Fecho os olhos e sem perceber o meu punho bate na mesa, os meus pés pousam no chão com toda a força enquanto me levanto, o meu coração a bater a velocidades estúpidas. Os olhares estão todos em mim em questão de segundos, o professor cala-se.
Eu: Será que posso ter uma aula normal sem que alguém se ria a todo o filho da puta de momento?
Professor: Linguagem, Sra. Bell.
Eu: Será. que. os. murmúrios. podem. parar? - digo entre os dentes, pausando a cada palavra, o meu peito doendo a cada momento.
Professor: Eu não estou a ouvir mais ninguém falar a não ser você Bell, sente-se. Agora.
Liam: Deixe-a falar. Tem de se expressar de alguma forma de qualquer das maneiras. - ele fala, as suas costas relaxam contra a cadeira enquanto o seu olhar se manobra para se encontrar com o meu, sério, duro, diferente.
Eu: O que é que acabaste de dizer?
Liam: Ouviste bem.
A minha boca permanece aberta em choque, os meus olhos ardem e é como se tudo voltasse para mim como pedras. O meu peito bate depressa, fecho os olhos e as lágrimas caiem deles. Fraca... eu não vou ser fraca. Eu não posso ser fraca.
Seguro rapidamente nas minhas coisas com as mãos trémulas e a porta bate abruptamente atrás de mim, deixando a sala em rumores.
A atenção toda em mim. Tudo o que eu menos queria. Como nunca quis.
Sinto-me lentamente quebrar, parar de respirar.


Continua...
xxPatrícia
 

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