quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pretend It's Ok - 1ª Temporada - Capitulo 17 - Empty


Ando lentamente, à procura de fazer o menor barulho possível. Ainda tinha a sensação que ele lá estava. E os meus pensamentos não me enganam. Ando um pouco mais até o meu quarto e encontro-o a mexer nas minhas coisas, em alguns livros da minha secretária.
Eu: Já te disse que não gosto que mexam nas minhas coisas? – respirei e falei baixo, de alguma forma tentava manter-me calma, mas um pouco da raiva ainda borbulhava no meu corpo. Andei até ele e tirei-lhe o livro das mãos e voltei a colocá-lo no lugar.
Liam: Hey para ti também. – sorri.
Eu: Obrigada. – disse. Ele respira fundo e olha-me atentamente, acaba por retribuir com um sorriso e sussurra um “não tem problema.” Por acaso até tem problema, tudo tem problema agora... o facto de ele me ajudar já é um problema, o facto de ele não me ajudar tem problema, o facto de ele respirar tem problema, o facto de ele não estar perto já é um problema...
Ele passa por mim e anda até a minha cama, senta-se.
Liam: Posso saber o que se passou à bocado? – ele diz sério e olha para mim, à espera que me sente ao lado dele. Ri com isso.
Eu: Não. – ele olha-me confuso e um tanto irritado, mas isso eu não posso garantir. – Estava aqui a pensar como é que será ver-te realmente irritado... – gargalhei e encostei-me à porta, a alguns passos dele.
Liam: Já faltou pouco para me veres assim... – ele ri e levanta-se, vejo-o caminhar até mim. – Tu irritas-me. Muito.
Eu: Igualmente. – ri irónicamente agradecida, eu sabia disso.
Liam: E fazes muitas outras coisas que nenhuma rapariga alguma vez me fez sentir... tens um poder de irritar as pessoas, extraordinariamente encantador! – ele gargalhou e aproxima-se de mim, tanto que a sua respiração me leva a outro planeta. Uma das suas mãos enconstada a porta, acima de minha cabeça. – E então? Perdeste a fala?
Eu: Perdi a vontade de te perceber. Isso sim.
Ele ri roucamente o que dá vontade de esmurrá-lo.
Liam: Podes me bater se quiseres. Vou me habituar a isso facilmente.
Mas que caralho? Ah tá bem, ele agora lê mentes... isso facilita muitas coisas. Ou então piora. A ideia de lhe dar um estalo parece-me bem, um pouco de adrenalina percorre o meu corpo adormecido.
Eu: Eu vou habituar-me muito mais facilmente... qualquer dia bato-te sem querer. E depois vais preferir não ter dito isso.
Falo séria e escapo-me do seu aperto e ando até o lado oposto. Ouço-o rir e suspirar fundo contra a porta. Olho para o telemóvel e vejo que ainda são 12h45min. Ando até a secretária onde ele mexia anteriormente e pego no livro que ele tinha nas mãos.
Eu: Gostas deste livro? Ou estavas apenas a mexer nas minhas coisas? – pergunto e ergo umas das sobrancelhas em dúvida.
Liam: Ou se calhar tento conhecer os teus gostos.
Eu: Ou se calhar és um idiota. – ripostei e ele engasga-se. Passo por ele que me olha atentamente e confuso, e desço as escadas. Quando chego lá a baixo vou até a cozinha. Pego numa maçã, sigo até a torneira e lavo-a cuidadosamente. Quando termino limpo as mãos numa toalha e vou até uma das cadeiras da mesa nunca utilizadas por mim e sento-me. Dou uma trinca, percebo outro corpo ocupar o local mas não tento perceber o que está a fazer. Olho de relance e percebo que se enconsta contra o balcão enquanto me olha.
Liam: Nunca te vejo a comer muito. Só maçãs, maçãs e mais maçãs. – ele repara. Sorri enquanto dou outra trinca e me lembro da mãe dele a persistir no assunto de mim e dele enquanto me dava bolachas.
Eu: Mentira. A tua mãe deu-me bolachas para eu comer hoje. – sorri e ele sorri igualmente e olha para o chão.
Liam: Ela fez isso?
Eu: Sim. Ela disse-me muitas coisas sobre ti. Acho que ela nunca te viu assim antes... pelo menos foi o que ela me disse.
Liam: Assim como?
Eu: Sei lá... acho que ela disse “um pouco cabeça no ar.” – tentei ser o mais fiel possível às suas palavras enquanto tentava imitar a sua voz. Ele ri envergonhado e olha pela janela.
Liam: A minha mãe é assim... não ligues a tudo o que ela diz. De qualquer forma vai sempre pensar que estou “apaixonado”! – ele ri ao pronunciar a última palavra com uma voz fanhosa.
Eu: E não estás? – ri levemente e pergunto séria depois.
Ele volta a engasgar-se o que me faz rir ainda mais.
Liam: Não. – responde.
Eu: Ok.
Acabo de comer a maçã naquele silêncio um tanto estranho e quando volto a olhar ao relógio eram 13h. Levanto-me e vou até a porta, ele segue-me e sai antes de mim, fecho a porta atrás de mim.
Liam: Eu posso-te levar até lá. – ele diz.
Eu: Eu sei que sim. Eu só não quero. – estalo e ele fica a olhar-me com os olhos brilhantes e bem abertos.
Liam: Porra deixa de ser estúpida! Eu quero-te levar, será que não percebes? – vejam só ele a mostrar o seu lado mau! Por momentos quase me arrepiei, mas depois lembrei-me que idiotas não passam de isso mesmo. Por muito que se tenha uma conversa boa com eles, depois estragam sempre tudo.
Eu: E eu quero ir sozinha! Também será que não percebes? – falo rude e a minha voz sai muito mais alta do que eu esperava. Um arrepio percorre todo o meu corpo quando o vejo voltar-se e caminhar até a sua casa.
Hoje olho para trás e percebo porque estou sozinha.
Era difícil perceber, mas agora vejo que eu mesma escolhi a solidão. Eu mesma escolhi o caminho, o caminho para o meu futuro. E eu escolhi o pior. Hoje não posso voltar atrás, porque para além de impossível, iria cometer os mesmos erros. E isso era pura estupidez.
Olho para atrás e já não vejo nenhum corpo alto e musculado, apenas uma rua, totalmente vazia. Como eu. Vazia.
Volto o meu olhar para a frente, o caminho até a escola ainda era longo e eu estava cansada. Não que estivesse cansada fisicamente, mas psicologicamente esse caminho iria acabar comigo e com tudo o que me resta agora. Que não é nada. Nada de que me orgulhe, nada que alguém algum dia queira ter. Sigo o percurso todo com este pensamento na cabeça e lembro-me da Sally. Só espero que ela não se lembre de me importunar hoje. Acho que a minha própria respiração dá cabo de mim. Ouvi-la faz-me querer parar de respirar de vez.
Vejo uma luz que agora persigo, uma memória passa por minha mente. Um raio de sol que me atinge e me cega. Um raio de sol cheio de escuridão que me ilumina. Escolhi este caminho que agora persigo, uma rotina em que estou presa. A droga persegue-me, sinto o cheiro invadir as minhas narinas. Eu queria inspirar tudo o que me aparecesse no caminho. Qualquer coisa, qualquer droga. Só isso pode levar esse peso que sinto agora. Um peso que apenas um idiota podia criar... e esse idiota tem nome, morada, e uma forma louca de me prender a ele.


Continua...

xxPatrícia


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